E para sua surpresa logo de cara foi cobrir uma notícia importante. Ela própria, antes de conseguir o estágio, ouvira falar do caso. Eduardo fora para a Espanha com a velha expectativa de uma vida melhor. Até que começou bem, arranjou emprego, ganhou bastante dinheiro e de mês em mês mandava dinheiro para a mãe e para a esposa. Um sujeito digno de orgulho. Entretanto, esses sujeitos às vezes não têm sorte e foi o caso de Eduardo. Acabou morrendo de um ataque cardíaco quando saía para ir ao trabalho. A notícia chegou à família e esta durante três meses tentou trazer o corpo para o Brasil. E eis que enfim conseguiram e a equipe de reportagem estava pronta para ir entrevistar a mãe de Eduardo, dona Cleonice.
Luciana, a estagiária, estava pronta para aprender como ocorriam as coisas na profissão. Uma coisa eram as teorias, outra o que acontecia na vida real. Precisava olhar como seu supervisor abordaria a pessoa.
Chegaram ao local, em frente ao necrotério, seu supervisor saiu do carro, cumprimentou dona Cleonice e começou a falar do teor das perguntas. A moça, mais que imediatamente aceitou, e o câmera começou a filmar. Nisso o celular de Cleonice toca e esta recebe a notícia de que sua filha e nora acabaram de morrer em um acidente de carro. A mulher se desespera, o câmera filma tudo, e a cena exclusiva é mostrada no telejornal com grande audiência.
No dia seguinte, Luciana chega à redação do jornal e seu supervisor lhe diz que vão à casa de Cleonice tratar da questão do pagamento. Ela não entende e ele diz que logo entenderá. Chegam à casa. Cleonice os recebe sorridente como se nenhuma tragédia tivesse acometido sua vida. O supervisor abre a maleta e entrega dez mil reais a Cleonice em notas de cinqüenta. Nisso Luciana não entende e pede uma explicação, no que o supervisor diz:
-É seu primeiro emprego garota, e esse é um procedimento normal que logo você se acostumará.
-Mas que procedimento, pagar por uma entrevista?
-Ingênua, por isso escolhi você. Não pagamos a entrevista, pagamos a exclusividade da história.
-Como assim?
-Vou tentar explicar. A mídia estava falando muito do caso da Cleonice e do filho Eduardo. Então resolvemos contactar ela e exigir exclusividade. Combinamos um plano e um preço, dez mil pacotes, para uma história mais bem elaborada.
-Mais elaborada, você quer dizer que...
-Olha, parece que você entendeu. Exatamente. Tramamos a morte da filha e da nora de Cleonice.
-O que? Mas como? É impossível terem premeditado um acidente.
-Veja o plano. Primeiro conversamos com o pessoal do necrotério para não dar nenhuma informação às concorrentes para podermos estar aqui sozinhos, com exclusividade. Depois escolhemos um motorista qualquer para seguir as moças e outro para bater no carro delas. Foi relativamente fácil.
Luciana não conseguia acreditar. Era irreal demais para ser verdade.
-Mas qual o objetivo, por que gastar tanto dinheiro somente para conseguir audiência.
-Incrível, parece que você nem é uma estudante. Quando mais audiência, mais empresas vão querer anunciar e isso significa mais dinheiro. O que gastamos é ficha perto do que conseguimos com publicidade.
Luciana não conseguiu falar. E não voltou para seu emprego. Abandonou faculdade e tudo mais, desapareceu. Até o presente momento não se sabe o que aconteceu com ela. Se alguém tiver informação favor entrar em contato.